O texto seguinte, - escrito por um grande treinador francês de basquetebol que foi também internacional da sua seleção, debruça-se sobre modificações ocorridas entre 1948 e 1952 relativamente às regras oficiais FIBA.
Questões como o arranque em drible, a possibilidade ou não de escolha de reposição pela linha lateral em vez de lance livre e, sobretudo, a possibilidade de o treinador pedir minutos de desconto de tempo para poder falar com os jogadores são modificações extremamente significativas introduzidos nesse momento.
Como sabemos, algumas foram revertidas por se saber que davam uma vantagem descomunal ao atacante – caso do arranque em drible podendo levantar primeiro o pé-eixo – outras mantiveram-se e evoluíram – descontos de tempo.
É interessante ver como as alterações às regras sempre tiveram impactos significativos no jogo. São as regras que abrem ou fecham perspetivas às formas técnicas e táticas de jogar que os jogadores e os treinadores aproveitam através da sua inventividade e criatividade.
Neste momento penso que a alteração à regra ocorrida há poucos anos e denominada usualmente de “passo zero” abriu possibilidades muito grandes na forma de jogar. A sua interpretação arbitral, que é tudo menos fácil na velocidade normal do jogo, está ainda a ocorrer.
“As modificações do regulamento trazem mudanças notáveis nas técnicas e táticas? (Parte 1)
Por ÉMILE FRÉZOT, Professor da E.N.S.E.P. (Escola Nacional de Educação Física em França)
As modificações do regulamento, em 1948, trouxeram mudanças técnicas e táticas muito importantes. Por exemplo: a partir dessa data, o arranque em drible pôde ser executado como uma saída com bola para passar ou lançar.
Recordemos que antes de 1948, para passar ou lançar, era possível largar a bola antes que o pé de pivô tocasse novamente o solo; mas, para arrancar em drible, a bola tinha de sair das mãos antes que o pé de pivô deixasse o solo. Toda a movimentação de pés das fintas com saída em drible devia respeitar necessariamente este ponto do regulamento.
Assim, a alteração ocorrida em 1948 neste ponto, autorizando o driblador a largar a bola (como para o passe e o lançamento) pouco antes de o pé de pivô tocar novamente o solo, trouxe mudanças importantes nesta movimentação de pés. Esta foi a mudança técnica mais importante que, ao introduzir o «duplo passo», deu ao atacante uma grande vantagem sobre o defensor.
O atacante foi ainda mais favorecido em relação ao defensor pela adoção do texto americano das regras e, nomeadamente, do artigo 94, que expôs pela primeira vez no texto francês, e com grande precisão, as relações entre atacante e defensor. Essas relações resumem-se no facto de que o atacante tem quase sempre vantagem sobre o defensor. Até 1948, devido à imprecisão do texto francês sobre este ponto capital, a tendência geral da arbitragem favorecia o defensor.
O aumento das pontuações desde 1948, que atingem agora 60, 80 e 100 pontos, quando antes raramente ultrapassavam 40 ou 50 pontos, explica-se pelo facto de que agora os árbitros, ao aplicarem este novo regulamento, favorecem os atacantes.
As modificações das regras nos últimos Jogos Olímpicos trar-nos-ão mudanças igualmente importantes?
Há muitas modificações de pormenor e muitas novas precisões.
Uma primeira modificação chama a atenção: o rigor das sanções por faltas pessoais é aumentado com o lance livre adicional, o segundo lance livre por falta pessoal sobre um jogador que não lança ao cesto no caso de a falta ser «flagrante», e os dois lances livres por qualquer falta pessoal nos últimos três minutos de jogo. Este rigor é contrabalançado pelo aumento para cinco, em vez de quatro, do número de faltas pessoais necessárias para expulsar um jogador do campo.
Outra mudança bastante importante reside no facto de que, nos últimos três minutos, já não é possível guardar a bola escolhendo a linha lateral em vez do lance livre, porque passa a ser obrigatório marcar os lances livres. No entanto, estes dois lances livres, que são concedidos por cada falta pessoal, permitem ao árbitro atuar eficazmente sobre uma equipa que está atrás por alguns pontos no marcador e que não hesita em cometer brutalidades para forçar o adversário a jogar, a fim de recuperar a posse da bola e forçar a vitória.
A equipa que está atrás no marcador por apenas alguns pontos mantém, contudo, a possibilidade de vencer até aos últimos segundos do jogo, o que era praticamente impossível quando a equipa em vantagem podia escolher a linha lateral em vez de marcar o lance livre.
Esta mudança é feliz, pois mantém a verdadeira fisionomia do basquetebol nos finais dos jogos.”
Fim da parte 1. (A continuar na próxima semana).









