Um verdadeiro Senhor
 
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Um verdadeiro Senhor

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A aposta no Prof. Francisco Costa revelou-se certa.

A Associação Desportiva Ovarense foi constituída em 19 de Dezembro de 1921 com o objectivo principal da prática do futebol, mas prevendo que outras modalidades fossem praticadas. 

De 1921 a 1972, de forma efémera, foram realmente praticadas outras modalidades desportivas, nomeadamente tiro, tiro de guerra, vela, atletismo, basquetebol, voleibol, ciclismo e ténis de mesa.

Nos anos 50 o voleibol chegou a ser uma modalidade importante disputando, por vários anos, o campeonato da 1ª Divisão. Nessa altura, não havendo Pavilhão, treinava-se e jogava-se ao ar livre e em terreno de saibro!

O ciclismo iniciou a sua actividade na época 58/59 e nos anos 60, atingiu notoriedade nas principais provas nacionais em que participou pois tinha nas suas fileiras alguns dos melhores ciclistas da altura: Fernando Mendes, Laurentino Mendes, João Gomes, Andrade e outros.

Ainda no atletismo foram conquistados vários títulos regionais e nacionais.O Basquetebol teve uma fugaz existência nos anos 30. Em 1932 passou a praticar-se a modalidade aos Domingos de manhã. Em 19 de Março de 1933 realizou-se o jogo de apresentação tendo a Ovarense perdido com as reservas do F. C. Porto por 44-2. Ainda em jogos particulares ganhou, em 26.11.1933, ao Internacional de Aveiro por 40-4, em 04.03.1934 perdeu com o Vilanovense por 25-9 e em 01.04.1934 perdeu com o Galitos de Aveiro por 17-5. E, a partir daí, não há mais notícias.

Em 1971 iniciou-se a construção do Pavilhão que foi inaugurado em 30.06.1972 e ao qual, carinhosamente, sempre chamei «caixinha de fósforos» por ser pequeno e inflamável com o entusiasmo dos adeptos.

Com o Pavilhão, outras modalidades foram criadas: Basquetebol, Andebol, Hóquei em Patins, e Karaté mas, de todas elas, só o Basquetebol vingou.

O Basquetebol da Ovarense verdadeiramente só nasceu e sobreviveu com a construção do Pavilhão. Logo em 1972/73, pela mão do «pai» do basquetebol Ovarense, João Gonçalves, estavam em actividade 60 atletas minis, 167 masculinos e 82 femininos.

Na época 75/76 a Ovarense apresentou a primeira equipa sénior masculina que disputou o campeonato regional de Aveiro, participou na Taça de Portugal e no Campeonato Nacional da 3ª Divisão classificando-se em 2º lugar.

Na época 78/79 a Ovarense ascendeu à 2ª Divisão Nacional e logo em 79/80 subiu à 1ª Divisão Nacional, de onde nunca mais saiu, sendo, assim o creio, a equipa que há mais anos consecutivos disputa a principal prova nacional de basquetebol.

No final da época 80/81, a convite de João Gonçalves, passei a integrar os corpos gerentes da então Secção de Basquetebol da Associação Desportiva Ovarense.

A promessa então feita foi a de que o Basquetebol seria gerido de forma a nunca ficar a dever um tostão a ninguém, cumprindo escrupulosamente todos os seus compromissos, promessa integralmente cumprida desde então e até ao tempo presente.

Essa postura granjeou-lhe respeito e consideração por todas as Entidades, clubes, atletas e simpatizantes em geral.

Em consequência dos muitos problemas que começaram a afectar a Direcção do futebol, com dívidas, processos crimes com condenações, execuções judiciais e perigo dum processo de insolvência, (que veio a acontecer) agentes de execução chegaram a penhorar bens que pertenciam à Secção de Basquetebol, uma vez que era parte integrante do clube. 

Tive de comprar, em tribunal, num processo executivo, uma Taça dum campeonato ganho pelo Basquetebol.

A danosa gestão da Direcção central estava a repercutir-se na gestão do Basquetebol.

Para sobreviver, foi necessário ao Basquetebol conquistar a «independência». Na assembleia-geral de 23.03.1996, talvez a mais concorrida de sempre, por centenas de votos a favor, 6 votos contra e 11 abstenções, os associados, aceitaram que o Basquetebol se constituísse como um clube autónomo, denominado ADO-Basquetebol da Associação Desportiva Ovarense, assim mantendo, através do nome, uma ligação umbilical ao clube-mãe. Mais foi deliberado que, a favor do novo clube, seria doado o usufruto do Pavilhão.

Em 24 de Abril de 1996 foi outorgada a escritura notarial constitutiva da ADO-Basquetebol da Associação Desportiva Ovarense.

Feitas estas sucintas explicações sobre a Ovarense Basquetebol, voltemos ao final da época desportiva de 80/81 e à preparação da época de 81/82.

Depois de colher várias informações sobre técnicos disponíveis, a Ovarense optou por contratar o Prof. Francisco Costa e com ele veio um atleta do CDUP, Carlos Cabral, em quem o Prof. Francisco Costa muito confiava.

A aposta no Prof. Francisco Costa revelou-se certa.

O Prof. Francisco Costa iniciou a colaboração com a Ovarense na época de 1981/82 e deixou de ser o seu treinador na época 85/86.

A aposta no Prof. Francisco Costa revelou-se certa. Por todos os motivos: profundo conhecedor da modalidade, excelente preparador físico, calmo, inteligente, culto, muito sério e empenhado. Como se costuma dizer, um verdadeiro Senhor.

Na minha opinião era também um bocadinho teimoso e inflexível. Em alguns aspectos a sua tolerância era zero. Lembro-me que num jogo que fomos disputar a Lisboa, contra o CDUL, como à hora marcada para a saída do Pavilhão o jogador Ângelo não tinha aparecido, o Prof. F. Costa deu na mesma ordem de partida. Como o Ângelo vinha do Porto, ainda pensei que fossem dados 5 minutinhos de espera, mas não. Se a memória não me falha, o jogador chegou logo a seguir e teve o expediente de apanhar o comboio e apareceu em Lisboa para o jogo.

Quando, por vezes, assistia aos treinos, ficava impressionado pela intensidade da preparação física que o Prof. F. Costa ministrava. E a verdade é que fiquei convencido de que em alguns jogos essa superior preparação física foi favoravelmente determinante.

Impunha uma grande intensidade nos treinos, tamborilando os dedos para imprimir ritmo à corrida, e a intensidade era tanta que os jogadores cochichavam que o «Chico carrasco» lhes dava cabo do couro mas, no fundo, apreciavam a excelente forma física que ele lhes proporcionava.

Os jogadores sabiam que o Prof. Francisco Costa tinha uma filosofia de jogo da qual não abdicava e que defendia com unhas e dentes. Só jogavam os atletas que obedeciam às indicações que eram ministradas; se não obedeciam, ficavam no banco por muito nome que tivessem.

Mas era um treinador muito humano e acessível, sempre pronto para ouvir os jogadores e os ajudar na resolução de algum problema que tivessem.

Era muito motivador e numa época em que a Ovarense correu o risco de poder descer de divisão, convenceu os jogadores a um esforço suplementar para que na altura determinante estivessem na melhor forma física da época.

Dava muito valor à organização defensiva e lembro-me de o ter ouvido dizer que se não sofrêssemos mais do que 65 pontos dificilmente perderíamos um jogo.

Recordo com muita saudade o Prof. Francisco Costa pela abnegação com que esteve ao serviço da Ovarense. Era, verdadeiramente, um SENHOR.


P.S. O autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico.

 

 


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