“Ele desafiava constantemente o pensamento convencional, experimentava diferentes formações e estilos de jogo e via possibilidades no jogo que outros muitas vezes não viam.
Muito do que é hoje comum na NBA moderna pode ser atribuído à forma como Nellie encarava o jogo.”
Steve Kerr
Don Nelson, faleceu dia 9 de agosto último, aos 86 anos. Depois de 31 anos ao leme de 4 equipas da NBA, os seus pares reconhecem o seu caráter de visionário do basquetebol. Coisas que ele lançou nos anos 80 e 90, consideradas loucuras para a época, são o pão nosso de cada dia na NBA atual. Por isso é considerado por alguns como o “pai do basquetebol moderno”.
Refira-se que como treinador nunca foi campeão da liga nem sequer alcançou a final, ao contrário dos seus 5 títulos como jogador dos Celtics, nos 11 anos em que praticou a modalidade. Quando se retirou como treinador, tinha o recorde de vitórias (1335) algo que só perdeu anos mais tarde para Gregg Popovitch. A falta de títulos não obstou a ser considerado treinador do ano, por três vezes, e a ser induzido para o Naismith Hall of Fame of Coaches em 2012. Nunca sendo campeão da liga como treinador, mereceu o reconhecimento da NBA para estar entre os 10 melhores técnicos em 1996 e entre os 15 em 2021.
O seu papel no basquetebol, de facto, não se revestiu de títulos, mas, em primeiro lugar, de contributos técnico-táticos e estratégicos para o jogo:
- O conceito de “Point forward” que colocava um extremo a desempenhar as funções que até aí estavam reservadas apenas aos bases (caso de Paul Pressey, em meados dos anos 809;
- O estímulo para que os seus postes viessem fora lançar de 3 pontos (casos de Manute Bol e mais tarde, de Dirk Nowitzki);
- Sacrificava jogadores mais altos do seu “cinco”, perdendo em altura e ressalto, de forma a ganhar em velocidade, lançamento e versatilidade;
- Apontou num jogo em que todos os jogadores faziam tudo, num jogo sem ter posições ultradefinidas,
- Nelson criou o que ficou conhecido como “Nellie Ball”, estilo baseado em ataques rápidos e no uso de jogadores mais baixos e mais atléticos para criar vantagens nos confrontos individuais.
Todas estas ideias, que na altura em que Nelson apostou nelas eram consideradas inapropriadas, são, atualmente, em grande parte aplicadas por muitas equipas e jogadores da NBA.
Mas os contributos de Nelson para o jogo e para os jogadores não se restringiram aos anteriormente apontados.
Don acreditou em e lançou jogadores, tal como Dirk Nowitzki e Steve Nash, partindo das suas qualidades e desenvolvendo-as e não as amarrando em camisas de sete forças. Depoimentos de Dirk são bem elucidativos: “Nellie… Não me recrutaste apenas. Acreditaste em mim.” E sublinhe-se que Nelson também teve participação importante na construção do futuro dos Warriors: defendeu a escolha de Stephen Curry no Draft de 2009, quando ainda era treinador da equipe. Como se sabe, estes três jogadores foram MVP’s e campeões da NBA. A marca deixada neles por Nelson está lá e é reconhecida por eles.
Outra das suas características foi a aposta no recrutamento de talentos internacionais, como o lituano Sarunas Marciulionis e o chinês Wang Zhizhi. Luka Dončić, destacou no seu tributo a Nelson, “a maneira como ele acreditava nos jogadores internacionais.”
“Positionless basketball, playmaking forwards, floor-spacing big men, smaller lineups and an emphasis on shooting and versatility are no longer unusual ideas. They are fundamental parts of the modern game. Nelson did not invent all of them, but he was willing to explore and embrace them long before they became conventional.” Mohammad Akkavi*
De facto, Don Nelson retirou-se dos bancos sem títulos como treinador apesar de ter conseguido provocar ao longo da carreira de técnico algumas surpresas ganhando a equipas que eram nitidamente favoritas (como nos playofs de 2007, contra os Dallas Mavericks). Mas, convenhamos. Para ser campeão da NBA é preciso reunir um conjunto de fatores que vão muito para além da excelência na condução técnica e humana de jogadores e equipas.
Uma pergunta talvez possa ser legítima de ser colocada: o que vale mais, o real legado de Don Nelson ao mundo do basquetebol ou um título da NBA?
*”Basquetebol sem posições, extremos criativos, espaçamento, equipas com jogadores mais pequenos e ênfase no lançamento e na versatilidade já não são ideias incomuns. São peças fundamentais do jogo moderno. Nelson não os inventou a todos, mas estava disposto a explorá-los e adotá-los muito antes de se tornarem convencionais.” Mohammad Akkavi












